Dicionário - Verbetes

ÉTICA E EDUCAÇÃO

Autor: ILDEU MOREIRA COÊLHO

Diferentemente das plantas e dos outros animais, cuja vida já está definida, o homem, no sentido genérico da expressão, em grego ánthropos, nasce como ser racional, autônomo, livre, mas inacabado, obra a ser concluída. Em sua relação com o mundo natural e os outros homens, em situações concretas, confere sentido ao mundo, à vida coletiva e individual; cria valores, formas de ser e de proceder em sociedade e como indivíduo, usos e costumes que, regulados não pela lei, mas pela tradição, formam o que em latim se chama mores, próprios de um povo, cultura ou sociedade; daí moral, em português. E ainda cria filosofia, letras, artes, ciência, tecnologia, instituições, organizações; escolhe, age, faz do mundo e da sociedade uma morada humana, ethos. Seguindo a reta razão, confirma e realiza sua condição humana; ou nega-a, apegando-se aos bens materiais, ao dinheiro, ao poder e aos prazeres, produzindo a desigualdade e a dominação.             

Enquanto a moral, entendida como conjunto de valores e práticas próprios de um grupo ou sociedade, legitima e prescreve o que devemos fazer nas várias situações da vida, a ética ou filosofia moral interroga o sentido dos valores, normas, costumes, hábitos e ação, tendo em vista a realização do bem-viver. Enfim, pensa e orienta as ideias e a ação no sentido do ser, da plena realização de todos os humanos. Apesar do pensamento, da razão ser inerente à existência da ação, em grego práksis, a ética não visa a reflexão, mas tornar os homens excelentes, pois mais do que saber o que deve ser feito, o que importa é agir no sentido elucidado pela razão. Sendo ao mesmo tempo animal e racional, corpo e alma, matéria e espírito, o homem é ser de necessidades, interesses, paixões e desejos que podem se tornar desregrados, mas também cria a razão e a ética que, orientando e elevando a vontade e a ação acima das necessidades e particularidades, são fundamentais para a realização da pólis, da sociedade e da humanidade autônoma, livre, justa e feliz: “o espaço do ethos, enquanto espaço humano, não é dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído. Nunca a casa do ethos está pronta e acabada para o homem” (VAZ, 1988, p. 13). E então é, sobretudo, um dever-ser que se realiza no que esse ser inacabado faz no sentido do bem, da vida excelente, virtuosa, da permanente busca da perfeição na existência coletiva e particular; ou se perde à medida que o homem se deixa levar pelo descomedimento e a maldade.

A ética se constitui, então, no pensar o que existe e o que está por vir, no criar e realizar o que ainda não existe, no reconhecimento e afirmação da possibilidade, própria de nossa condição humana, de criar formas de ser e de existir como humanidade e indivíduo; no contínuo aprender a viver, a agir com racionalidade, autonomia, liberdade e responsabilidade para com o presente e o futuro do mundo natural e humano, criando e preservando formas de viver em comum que confirmem nossa humanidade, o que supõe uma educação orientada pelo éthos e pela preeminência da vida pública sobre as outras dimensões da existência citadina. Ser ético, então, não é seguir um modelo de vida e ação, mas pensando as ideias e a existência humana em sua relação intrínseca com a natureza e os outros humanos, agir segundo a razão, constituindo uma verdadeira morada humana, própria para, em comum, se viver a igualdade e a justiça, se cultivar a vida boa, excelente, virtuosa.

Com os gregos antigos, aprendemos que a paideia, entendida e vivida ao mesmo tempo como educação, tradição, civilização, formação cultural do cidadão, é inseparável da existência coletiva, da vida em comum, bem como da política, da democracia, da filosofia e da ética, enquanto ideia e prática. Nessa totalidade viva e em movimento, o futuro cidadão era formado, inserido, ao ver e assistir o que acontecia na vida da pólis, sobretudo no teatro, nos templos, nas cerimônias religiosas, nas assembleias e tribunais, nas ruas, na agorá, praça pública, lugar de reunião, de debates e combates relativos à vida em comum, pensada, discutida, decidida, julgada e reorientada no sentido da autonomia, da liberdade, da excelência, da virtude, da vida boa, da justiça (VERNANT, 2008). Esse amplo, profundo, significativo e imprescindível movimento de educação, no sentido de paideia, era inseparável da existência da pólis, vista e vivida não como um lugar, mas como cidadãos pensando e instituindo a vida em comum, unidos por vínculos pessoais de amizade e exercício de atividades em defesa do que pertence a todos, a cidade justa, o bem-viver.

Daí a necessidade de interrogar o sentido da educação, em geral esquecida e pouco valorizada pela sociedade, Estado, governos, educadores, pais e professores; além de geralmente reduzida à escola e esta à organização que treina a mente dos alunos e professores, socializa o saber, reduzido a conteúdo e informação, prepara para a continuidade dos estudos, a aprovação nos concursos, o trabalho, o emprego. Sem dúvida, a educação é mais significativa e importante do que a escola, para a vida em comum e pessoal, a afirmação da autonomia, da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da justiça; e a escola somente existirá se ela se constituir e se afirmar como instituição por excelência da educação, da cultura, da formação humana. A título de exemplo, algumas implicações ético-políticas para a educação, nos vários momentos e lugares em que ela acontece, e a escola, em todos os níveis: 1. ofuscados pelo brilho das informações, novidades e tecnologias, pela preocupação com o sucesso, os resultados, o funcionamento, a adequação ao chamado mercado, pelo culto da quantidade, do efêmero e dos encantos do prazer, do dinheiro e do poder, esquecemos a questão da verdade e confundimos quantidade com qualidade, comprometendo a formação; 2. sem aprendizado e cultivo da leitura e do estudo, sem convivência com os livros e trabalho com os textos não há cidadania, autonomia e liberdade, mas dependência, infantilização dos alunos e negação de direitos; 3. sem inserção rigorosa e crítica de todas as crianças, jovens e adultos no mundo da cultura, da sensibilidade, da imaginação e do pensamento, não há democratização da cultura, da educação e da escola, mas banalização do saber e manipulação dos alunos; 4. a constituição do trabalho de formar, ensinar e aprender como trabalho intelectual exige disciplina, dedicação, esforço, superação da preguiça mental e libertação de professores e alunos que, às vezes, são escravos do mero cumprimento de tarefas e obrigações relativas a aulas, frequência, trabalhos, provas e notas; escravos da preguiça de ler, estudar, pensar e criar; escravos da cópia de trabalhos de semestres anteriores ou de outras escolas, de baixar textos na internet, de pôr o próprio nome em trabalhos feitos por outrem; do comodismo que, às vezes, condena professores e alunos a passarem pelas disciplinas e pelo curso sem que se tornem outros, seres humanos dignos, fraternos e justos (COÊLHO, 2005; 2009).

BIBLIOGRAFIA:

COÊLHO, I. A universidade, o saber e o ensino em questão. In: VEIGA, I.; NAVES, M. (Org.). Currículo e avaliação na educação superior. Araraquara: Junqueira & Marin, 2005. p. 53-77.

COÊLHO, I. (Org.). Educação, cultura e formação: o olhar da filosofia. Goiânia: Ed. PUC Goiás, 2009.

VAZ, H. L. Escritos de filosofia II: ética e cultura. São Paulo: Loyola, 1988.

VERNANT, J.-P. As origens do pensamento grego. 17. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2008.

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