Dicionário - Verbetes

EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL DOCENTE

Autor: WANDERSON FERREIRA ALVES

Esfera do vivido na profissão de ensinar. As profissões, como formas contemporâneas de enquadramento econômico das atividades humanas, portam sempre a dimensão do viver o métier em contraste com o momento de preparação para seu exercício. Isto porque o quadro sócio-histórico delineado pelo capitalismo separa estruturalmente a esfera da formação (em sentido amplo) e a do trabalho (ver ALALUF, 1986 e STROOBANTS, 2007). A experiência profissional remete à segunda esfera, a do trabalho, e esta pressupõe, em sentido dialético, a formação. Com esse cuidado podemos adentrar a esfera do trabalho docente e, dentro dela, nos defrontarmos com a problemática da experiência profissional. A esse respeito, quando no ensino falamos em experiência profissional isso significa pensar na partilha de uma história em comum, na constituição de outras histórias, no encontro do indivíduo com os coletivos de trabalho, encontro com a herança dos que estavam em campo antes de nós. Na profissão de ensinar, a dimensão da experiência ainda compreende o lugar de muitos outros encontros: com as políticas educacionais, com as formas organizacionais da escola, com determinados usos da força de trabalho, com o prazer e o sofrimento na profissão, com uma representação sindical e, mais amplamente, com a relação social do salariado e suas contradições. Nessa perspectiva, a experiência comporta uma dimensão objetiva e subjetiva; nunca estritamente cognitiva, mas, sobretudo, corporal, com todos os enigmas de um corpo que aprende, que esquece e que envelhece (a esse respeito ver SCHWARTZ, 2010). Enfim, a experiência profissional compreende a passagem do indivíduo por um conjunto de aspectos que se processam ao longo da história de uma profissão; sendo experiência, trata-se de aspectos que remetem à esfera do trabalho concreto e que estão em mediação com uma determinada formação profissional e a esfera em que ela é efetivamente posta em movimento nas situações laborais. Esvaziada ou enriquecida, a experiência profissional é uma das noções mais sujeitas a controversas.

 No sentido mais frequente, o profissional experiente é tido como alguém experimentado e que, a partir de uma determinada formação, conhece a efetiva realização do trabalho a ser desenvolvido. Por esse ângulo que visita o senso-comum, o termo parece, em si, guardar uma conotação positiva. Alguns estudiosos, todavia, notaram que a experiência demanda certa elaboração para se configurar como positiva, nos termos que o filósofo norte-americano John Dewey sublinhava que um professor poderia ter dez anos de experiência ou um ano repetido dez vezes. Aqui é possível já identificar a problemática que a noção de experiência profissional evoca e que pode ser formulada por meio de uma interrogação: qual valor atribuir à experiência profissional?

 O desdobramento da questão anterior assinala um quadro no qual, ao fundo, apresenta-se a problemática do sentido e da natureza das ligações entre trabalho, saber e experiência (ver SCHWARTZ, 1988). Se se quiser identificar na tradição filosófica as origens dessa relação e de suas ambiguidades, é possível encontrá-la em Aristóteles (os distintos valores atribuídos à práxis e à poiesis), mas também em Platão. Conforme bem destaca Schwartz (2010, p.37) nos Diálogos, pode-se observar que Platão se interessa pelo saber-fazer dos artesãos, afirmando que “é preciso ver os artesãos, pois eles capitalizaram algo que lhes assegura certa competência, permitindo produzir os objetos dos quais necessitamos”. Contudo, ao mesmo tempo, Platão “desenvolve uma crítica dessa forma de competência: a experiência na qual se acumula essa competência é, sobretudo, rotina, quer dizer, algo que não tem muito valor, sob certo ângulo, nenhum valor, porque é do saber que não sabe relatar o que faz, é intuição”. Ao longo do tempo, essa ambiguidade se fará presente, de diferentes maneiras, no campo das ciências humanas e sociais: a experiência como valor ou como lugar de um fazer cujo saber se retrai? Lugar em que os conceitos podem se renovar ou lugar em que eles se esvaem? A experiência como lugar de contradições que, em exame, enriquecem a relação entre o trabalho e o saber; ou a experiência como lugar da repetição do mesmo e no qual o percurso histórico do trabalhador (individual e coletivamente) nada agrega? Tais interrogações têm consequências de longo alcance, pois, no ensino, as respostas a elas repercutem sobre a sorte das pesquisas sobre o trabalho dos professores.   

 A problemática da experiência profissional aciona essas ambiguidades e impasses, trazendo, por um lado, a necessidade de se melhor compreender e dar consequências ao que se apresenta no campo do exercício concreto das profissões, ou seja, não perder de vista a experiência das forças produtivas, conforme a bela expressão de Yves Schwartz. Por outro lado, uma análise que se queira consequente precisa estar e transcender as situações particulares, por isso demanda a mediação da totalidade das relações sociais na qual a experiência se põe. A experiência profissional, compreendida em si mesma ou seu contrário, e a desconsideração da esfera experiencial da profissão são as duas formas de uma mesma perspectiva regressiva. Cada uma, à sua maneira, contribui para obscurecer a realidade. A experiência profissional não existe por sobre a realidade social e tampouco se faz sem os sujeitos concretos, o que remete à experiência dos homens e mulheres no trabalho. Investir na compreensão e no desenvolvimento da experiência profissional dos professores e professoras envolve necessariamente enfrentar essas difíceis ambiguidades e interrogações.           

BIBLIOGRAFIA:

ALALUF, Matéo. Le temps du labeur: formation, emploi et qualification em sociologie du travail. Bruxelles: Université de Bruxelles, 1986. 

SCHWARTZ, Y. Experience et connaissance du travail. Paris: Éditions Sociales, 1988.

SCHWARTZ, Y. A experiência é formadora? Educação & Realidade, Porto Alegre, v.35, n. 1, p. 35-48, jan./abr. 2010.            

STROOBANTS, M. Sociologie du travail. 2. ed. Paris: Armand Colin, 2007.

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