Dicionário - Verbetes

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

Autor: CARLOS EDUARDO VIEIRA

Disciplina e campo de pesquisa associados à área da Educação e, em particular, à subárea Fundamentos da Educação. Os temas privilegiados pela História da Educação (HE) variaram de acordo com as tendências historiográficas hegemônicas nos diferentes contextos temporais e culturais. As histórias das ideias pedagógicas, das instituições educacionais, das políticas públicas e da organização do sistema público de ensino se encontram entre os enfoques mais tradicionais. Contudo, recentemente, as investigações sobre as práticas educativas, os rituais escolares, os materiais didáticos, os equipamentos de ensino, as disciplinas, os currículos e as histórias de vida de professores e de alunos ganharam força entre os problemas tratados na HE. Tanto nos temas quanto nas periodizações consagradas pelas obras de HE, observamos mudanças, uma vez que os grandes recortes temporais, privilegiados pelos manuais didáticos destinados para as Escolas Normais, foram paulatinamente sendo preteridos em favor de recortes mais delimitados no plano da produção acadêmica. No que tange às fontes utilizadas na escrita da HE, identificamos mudanças ainda maiores e mais profundas, uma vez que foram somadas aos consagrados documentos escritos, oriundos do Estado e de natureza legislativa, uma multiplicidade de materiais antes desconsiderados ou presentes com pouca frequência nas narrativas históricas, tais como fotografias, cadernos escolares, manuais didáticos, regulamentos escolares e a imprensa pedagógica. No plano teórico, também verificamos a incidência de rica variedade de referências que reverberam na HE a partir de diálogos com as Ciências Humanas e, de modo particular, com a tradição historiográfica. Correntes de pensamento como o historicismo, o positivismo, o estruturalismo e o marxismo tiveram fortes impactos em diferentes momentos da história intelectual do campo. Não obstante, seguindo uma tendência cultural mais ampla, verificamos contemporaneamente a dispersão da interlocução teórica, tendo como resultantes, por um lado, a pluralidade de perspectivas a partir da incorporação de novos procedimentos analíticos e, por outro, o risco de uma excessiva fragmentação das temáticas de pesquisa. No Brasil, as primeiras obras que refletiram sobre a educação a partir de uma perspectiva histórica não estavam vinculadas diretamente à esfera educacional. Esses textos remontam ao último quartel do século XIX, tendo como destaque a Instrução Pública no Brasil: história e legislação 1500-1889, de José Ricardo Pires de Almeida. Nesse período, os investimentos historiográficos sobre a educação foram pontuais e sem qualquer relação, seja com a criação de disciplina, ou com a formação de especialidade de pesquisa histórica. No final da década de vinte do século XX, assistimos à criação da disciplina História da Educação nos cursos normais e, com isso, verificamos, ao longo da primeira metade do século passado, a circulação de inúmeros manuais estrangeiros e nacionais de HE no país. Nesse período, a HE foi institucionalizada no nascente campo educacional no Brasil, de maneira a confirmar uma tendência europeia e norte-americana de situar a HE como disciplina e, posteriormente, como especialidade de pesquisa associada à área da Educação. Na década de cinquenta, a HE assume, pela primeira vez, a condição de tema de pesquisa acadêmica no interior de um projeto amplo de construção do conhecimento sobre a experiência educacional no Brasil, no qual muitos pesquisadores se associaram sob a coordenação de Laerte Ramos de Carvalho. Nas décadas seguintes, a HE segue presente, tanto nos cursos de formação de professores, quanto nos recém-criados Programas de Pós-Graduação em Educação. No final dos anos oitenta e, sobremaneira, nos anos noventa e dois mil, observamos a expansão, a especialização e a internacionalização do campo. Esse movimento implicou na organização de linhas de pesquisa distribuídas na rede nacional de Programas de Pós-Graduação em Educação, de revistas e de linhas editoriais especializadas na temática, de projetos e grupos de pesquisa de abrangência nacional e internacional e de congressos e fóruns regulares de debate. Nesse contexto, cabe destaque para a criação do Grupo de Trabalho de História da Educação da ANPEd (1984) e da Sociedade Brasileira de História da Educação (1999). Nos balanços sobre a presença da HE nos cenários nacional e internacional, uma questão se impõe: qual o papel da disciplina e da especialidade de pesquisa para as áreas da Educação e da História? No plano do debate historiográfico, cada vez mais, percebemos o reconhecimento dessa especialidade na produção do conhecimento histórico referente às histórias da cultura e dos processos de formação. No que tange à educação, a disciplina foi inicialmente compreendida como espaço para a produção de exemplos ou de lições extraídas do passado para a instrumentalização das práticas pedagógicas. Essa noção que coloca o passado a serviço dos projetos educacionais em curso no presente foi contestada em diversos momentos do debate historiográfico, contudo a crítica à presentificação da história não resultou na visão antiquarista que aprisiona o passado nos seus contextos específicos de produção.   As relações entre passado e presente seguem sendo pensadas e problematizadas na cultura historiográfica, de maneira que não existe uma resposta cabal para essa questão que é central na formação das identidades dos sujeitos e das instituições sociais. Não obstante, podemos nos posicionar no sentido de compreender a HE como um espaço de reflexão que visa desnaturalizar a cultura e os seus processos de transmissão, de modo a produzir explicações sobre os momentos e os contextos que foram determinantes na estruturação dos modelos de educação predominantes. Logo, não se trata de recurso moralista que usa o passado para produzir lições sobre como se deve agir no presente, mas de enfatizar a perspectiva que compreende a sociedade e a cultura tanto no passado quanto no presente, como resultado de escolhas, entre outras possíveis, adotadas no âmbito de disputas políticas. Nessa chave de leitura, o entendimento conceitual da lógica conflituosa que explica a afirmação social de determinados projetos educacionais é alcançado através da compreensão histórica desses processos, ou seja, situando no tempo e no espaço os problemas, as razões, as estratégias e as posições ocupadas pelos agentes em conflito.

BIBLIOGRAFIA:

ALMEIDA, P. Instrução publica no Brasil (1500-1889): historia e legislação. 2. ed. rev. São Paulo: EDUC, 2000.

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