REZENDE, Lucas Felicetti. 2021. UFMG. Dissertação: Mestrado em Educação. Orientação: Lívia Maria Fraga Vieira.
O presente trabalho teve o objetivo de analisar como se relacionam os think tanks pró-mercado ligados à Atlas Network no Brasil com o movimento educacional conservador Escola sem Partido (ESP). As análises partem da premissa de que o avanço da racionalidade neoliberal em escala global, desde o final do século XX, propiciou transformações nas instituições em sintonia com uma lógica de livre mercado. Essas transformações prepararam o solo para a emergência de uma nova racionalidade, o neoconservadorismo, assim como possibilitaram o surgimento de novos atores privados na regulação educacional. O neoconservadorismo é moralizante, característica conflitante com a amoralidade de livre mercado do neoliberalismo, entretanto, ambas se fortalecem mutuamente para a difusão de certos valores, como a prevalência da desigualdade e menos Estado. Alguns dos novos atores da regulação educativa se articulam em redes globais para a promoção de políticas e ideais neoliberais, como certos think tanks, instituições reconhecidas por exercer influência na cena política pela mobilização de conhecimento. A Atlas Network é um think tank que atua no interior dessas redes de política educativa a partir de sua própria rede de think tanks, que interliga mais de 460 instituições liberais em cerca de 90 países. Existem 15 think tanks ligados à rede Atlas no Brasil, sendo alguns deles muito entrelaçados ao ESP, como o Instituto Liberal e Instituto Millenium. Para o ESP, professores socialistas estão doutrinando estudantes para fins políticos e, por isso, devem ser impostas medidas de combate à doutrinação. Algumas relações percebidas entre think tanks da Atlas e o ESP se deram para fortalecer o movimento, dando apoio a seu crescimento. Essa contextualização levanta alguns questionamentos: o fomento ao ESP é uma estratégia da Atlas para a difusão de seus ideais? O ESP se relaciona com todos os 15 think tanks da Atlas no Brasil? Como se dão tais relações? A fim de responder esses questionamentos, utilizou-se o método da netnografia. Por meio de pesquisas online, foram investigados variadas formas de interação entre a rede Atlas e o ESP e o que os think tanks mobilizaram de conhecimento sobre o movimento. A partir das análises, foi possível perceber que a rede Atlas nutriu o ESP com apoio organizacional e ideológico como parte de uma estratégia de difusão do neoliberalismo. Contudo, não há unanimidade no interior da rede Atlas sobre o ESP. Dentre os 15 think tanks, oito têm alguma relação com o movimento ou mobilizaram conhecimento sobre ele, sendo que alguns se distanciaram do ESP ao longo tempo e/ou realizaram críticas devido ao seu caráter conservador, distante da premissa liberal. As discordâncias sobre o ESP no interior da rede Atlas evidenciam, simultaneamente, tensões entre neoliberais e neoconservadores, assim como a atuação da Atlas Network por diversas frentes para aumentar sua influência e difundir ideais de menos Estado e mais mercado.
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