BORGES, Adriana Araújo Pereira; HUDSON, Bruna Cristina da Silva (2026). Mapeando desigualdades a partir de uma análise estatística-documental: deficiência e interseccionalidade no contexto da Educação Básica brasileira. Entretextos. Revista de Estudios Interculturales desde Latinoamérica y el Caribe.
O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, e essas desigualdades se manifestam de forma expressiva no ambiente escolar, sobretudo em relação às pessoas com deficiência. Com base na perspectiva da interseccionalidade, compreende-se que as identidades não são isoladas, mas moldadas por experiências sobrepostas que resultam em um quadro complexo. No contexto brasileiro, a vulnerabilidade de determinados grupos manifesta-se de maneira multifacetada, atravessada por marcadores sociais como gênero, raça/cor, classe social, território e pertencimento a grupos historicamente marginalizados. Considerando tais marcadores, para discutir a influência da interseccionalidade na escolarização de estudantes com deficiência da Educação Básica no Brasil, documentos e produções científicas foram analisadas, juntamente com dados do Censo Demográfico de 2022 e do Censo Escolar de 2025. Os dados preliminares evidenciam que, embora as mulheres representem a maioria da população com deficiência no Brasil, estas apresentam quantitativos inferiores de matrículas na Educação Especial em classes comuns, indicando barreiras persistentes de acesso escolar. Entretanto, entre aquelas que acessam a escola, observam-se melhores indicadores de escolarização nos níveis mais elevados de ensino em comparação aos homens com deficiência. No recorte racial, apesar dos estudantes negros (pardos e pretos) constituírem o maior contingente de matrículas, as pessoas brancas registraram os melhores indicadores educacionais em praticamente todos os níveis mais altos de instrução. Pessoas com deficiência pretas, pardas e indígenas apresentam maiores dificuldades de permanência e conclusão da trajetória educacional. As análises territoriais demonstram profundas desigualdades nas escolas indígenas e quilombolas, marcadas pela precariedade de infraestrutura, pela reduzida oferta de atendimento especializado e pela escassez de recursos pedagógicos e de acessibilidade. Conclui-se que a interseccionalidade necessita ser considerada em todos os aspectos, inclusive na proposição de políticas públicas que visem reduzir as desigualdades e superação das barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência, em especial àquelas pertencentes aos grupos mais vulneráveis.