Itinerários da internacionalização da educação superior brasileira no âmbito da América Latina e Caribe

SOUZA, Juliana F. 2018. UFMG. Tese: Doutorado em Educação. Orientação: Maria do Carmo de Lacerda Peixoto.

Este trabalho se propôs a investigar qual o lugar que a região da América Latina e Caribe ocupa nas políticas e processos contemporâneos de internacionalização da educação superior brasileira. A análise empreendida concentrou-se inicialmente nos sentidos da internacionalização da educação superior na contemporaneidade, destacando como projetos articulados no nível regional podem se tornar estratégicos para o fortalecimento daqueles sistemas universitários que trabalharem de forma alinhada entre si. Posteriormente buscou-se construir um panorama da educação superior na América Latina e Caribe, assinalando os contrastes e convergências entre os países do subcontinente, bem como os atores mais relevantes da região no que tange à produção do conhecimento. Num terceiro momento, focalizou-se o sistema brasileiro de educação superior, num esforço de mapeamento da internacionalização das suas universidades e de compreensão de em que medida e com quais motivações tem sido fomentada a intensificação das relações interinstitucionais com a América Latina e Caribe. Ao final se desenvolveu um estudo de caso da Universidade Federal de Minas Gerais, com o intuito de se verificar como uma das instituições mais prestigiadas do subcontinente estrutura sua política de internacionalização e qual o espaço correspondente à América Latina e Caribe em seu quadro de atividades. A discussão está ancorada nos conceitos de campo social, governança educacional, internacionalização da educação superior e regionalização da educação superior, tendo como referência os escritos de Pierre Bourdieu, Roger Dale, Jane Knight e Susan Robertson, dentre outros autores que abordam a temática da educação superior numa perspectiva crítica. O estudo perpassou ainda discussões sobre universidades de classe mundial e sobre a geopolítica do conhecimento. A pesquisa tem caráter qualitativo e incluiu análise documental, entrevistas semiestruturadas e aplicação de questionários, além de utilizar dados estatísticos relativos à internacionalização da educação superior. Dentre os documentos analisados destacam-se o Plano Nacional de Educação 20142024, o Plano Nacional de Pós-Graduação 2011-2020, bem como os Planos de Desenvolvimento Institucional da UFMG relativos aos ciclos de 2008 a 2012 e de 2013 a 2017, com os respectivos relatórios de gestão. Dentre as informações estatísticas, destacam-se os microdados do Censo da Educação Superior 2016, que retratam a mobilidade internacional dos estudantes brasileiros. À luz do referencial teórico e do conjunto de informações coletadas, constatou-se, em primeiro lugar, que a política nacional de educação superior está alinhada a uma agenda globalmente estruturada para a educação, na qual se privilegia a interação com países centrais para aprimorar a capacidade do sistema acadêmico brasileiro de produzir ciência e inovação, na perspectiva de uma sociedade do conhecimento. Em segundo lugar, observou-se que há uma hierarquia interna entre os sistemas nacionais de educação superior da América Latina e Caribe, com uma tendência à manutenção das relações entre um grupo restrito de organizações de nível de qualidade equivalente. Por fim, verificou-se que embora a agenda brasileira esteja focada na intensificação da internacionalização com instituições do Norte, tem emergido experiências inovadoras de cooperação no nível regional, tais como a Universidade Federal da Integração Latino-Americana, criada pelo governo federal, e o Programa de Doutorado Latino-Americano em Educação, realizado na UFMG em parceria com instituições de outros países. As duas iniciativas constituem projetos alternativos de internacionalização, mais autônomos e autocentrados, e são orientados por uma concepção de justiça social e de solidariedade entre os pares.