NEIDE ELISA PORTES DOS SANTOS
No contexto empresarial, trabalho em equipe refere-se ao trabalho em conjunto que
é realizado tendo como objetivo o alcance de metas e resultados definidos pela
empresa. De acordo com Deluiz (1996), o acirramento
da concorrência intercapitalista, os
processos de globalização e acumulação flexível obrigaram as empresas a
buscarem estratégias para obter ganhos de produtividade através da
racionalização dos processos produtivos que podem ser visualizados pelo uso da
microeletrônica e da flexibilidade dos processos de trabalho e de produção, implicando uma generalizada
potenciação da força de trabalho. De acordo com a mesma autora, É, também, exigido deste trabalhador,
capacidade de diagnóstico, de solução de problemas, capacidade de tomar
decisões, de intervir no processo de trabalho, de trabalhar em equipe,
auto-organizar-se e enfrentar situações em constantes mudanças. A partir de
um estudo de caso realizado em uma empresa que adota o modelo flexível de
organização do trabalho, Araújo (1999) argumenta que os novos “atributos
pessoais” demandados aos trabalhadores pelas empresas japonesas remetem ao grande e impreciso leque de
qualidades humanas: iniciativa; espírito de equipe; capacidade de comunicação;
sociabilidade; criatividade; disposição para aprender; curiosidade; disciplina;
motivação; atenção; responsabilidade; estabilidade; confiança; autonomia (…)
capacidade de pensar, decidir, etc. (ARAÚJO, 1999, p. 19). No contexto
analisado, dessas qualidades requeridas, de acordo com o autor, a que esteve
mais presente no discurso de gestores e trabalhadores é o chamado “espírito de
equipe” que remete ao trabalho em equipe e cuja promoção “relaciona-se com as implicações da nova organização da produção que
enfatiza a responsabilidade do grupo com os resultados, a cobrança e o controle
mútuo”. (ARAÚJO, 1999, p. 21-22) Cabe ressaltar que, para o desenvolvimento
desse espírito, é necessário o engajamento do trabalhador. O compromisso com a empresa expressa o chamado “espírito de equipe” e
legitima as relações baseadas nos critérios do mercado como única possível.
(ARAÚJO, 1999, p. 23). Para a compreensão da noção de trabalho em equipe no
contexto educacional, é necessário lembrar que a adoção de modelos de gestão
empresarial no campo educacional não é recente, ganhando maior ênfase a partir
da incorporação do modelo de Gestão da Qualidade Total no contexto educacional
e com as reformas educacionais instituídas a partir dos anos 1990. Esse
processo pode ser vinculado ao movimento de reestruturação do trabalho escolar
e de mudanças na organização escolar. Oliveira (2002) discute ambos os conceitos.
De acordo com a autora, a organização do
trabalho escolar é um conceito econômico, refere-se à divisão do trabalho na
escola. Podemos considerá-la a forma como o trabalho do professor e dos demais
trabalhadores é organizada na instituição escolar, visando atingir os objetivos
da escola e do sistema. (OLIVEIRA, 2002, p. 131) Já o termo “organização escolar”
refere-se às condições objetivas sob as
quais o ensino está estruturado. Das competências administrativas de cada órgão
do poder público ao currículo que se pratica em sala de aula, passando pelas
metodologias de ensino e processos de avaliação adotados, tudo seria matéria de
organização escolar. (OLIVEIRA, 2002, p. 132) A partir das definições
apresentadas pela autora, entende-se por Reestruturação do trabalho escolar o
conjunto de mudanças na organização da escola que vem ocorrendo a partir dos
anos 1980, relacionado aos processos de redemocratização do país e de
implementação da gestão democrática. A gestão democrática da educação que está
fundamentada no artigo 14 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
LDB – Lei nº 9. 394/96, que traz em seus dois incisos os seguintes
princípios: participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto
pedagógico da escola; e a participação das comunidades escolar e local em
conselhos escolares ou equivalentes. Como lembra Oliveira (2002), as mudanças
na organização escolar tendem a alterar a
divisão do trabalho na escola, com a extinção de algumas rotinas e na adoção de
outras, na substituição de certas hierarquias, na demanda por novos
procedimentos profissionais. As reformas atuais, contempladas na legislação
educacional em vigor, sobretudo na LDB n. 9394/96, apresenta um reforço do
trabalho coletivo e a necessidade de participação e envolvimento da comunidade
na gestão da escola. (OLIVEIRA, 2002, p. 132). Ao discutirem os processos
de construção e implementação do Projeto Político-Pedagógico da escola – um dos
elementos constitutivos do processo de gestão democrática da educação, Oliveira,
Souza e Bahia (2005) fazem referência à noção de participação. De acordo com as
autoras, participar significa “partilhar
com”. É preciso que haja a aglutinação, a ação coletiva, que envolva a
participação de todos na análise dos problemas escolares (…). Nessa perspectiva, é preciso, literalmente,
abrir a escola para a participação da comunidade escolar como um todo: pais,
alunos, profissionais da educação e funcionários da instituição. (OLIVEIRA;
SOUZA; BAHIA, 2005, p. 49) A construção da gestão democrática da educação,
sobretudo pela via da participação dos docentes na elaboração da proposta
pedagógica da escola, é perpassada por um desafio: o trabalho em equipe. Não se trata
de uma simples transposição de um conceito de organização do trabalho para a
organização escolar. Se no contexto organizacional essa forma de trabalho
(trabalho em equipe) tem sido utilizada como um mecanismo de cooptação do
trabalhador, no contexto escolar, essa noção precisa ser ressignificada. O
trabalho em equipe há que se constituir num mecanismo de organização do
trabalho escolar, no qual todos tenham voz na elaboração da proposta
pedagógica. Para a realização do trabalho coletivo e em equipe, é necessário
que a comunidade disponha de condições objetivas, como, por exemplo, horários
de reuniões ou encontros coletivos. O chamado espírito de equipe precisa ser
desenvolvido numa perspectiva de colaboração entre professores, funcionários e
alunos voltada para a construção coletiva e democrática da escola. É necessário
considerar o professor como um agente de mudança, porém não o único. Para o
desenvolvimento da dimensão coletiva de organização escolar, são necessários
alguns elementos: a melhoria das condições de trabalho docente, formação,
carreira e salário. O trabalho em equipe pode ser concebido como trabalho
conjunto realizado pela comunidade escolar com vistas à construção de uma
educação pública e de qualidade social que, para ser consolidado, necessita,
além da participação de todos, ou seja, que todos os sujeitos tenham voz e peso
político, o desenvolvimento de condições objetivas como as que foram elencadas,
sobretudo as que se referem ao trabalho docente.